Soft power, o que é isto?

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No fim dos anos 80, Joseph Nye, no ensaio The Mean to Success in World Politics (“O significado do sucesso na política mundial”) cunhava a expressão soft power para indicar um princípio de economia e eficiência em política exterior. Nye recorda que o poder se concretiza na capacidade de “forçar” os outros para que façam o que gostaríamos que eles fizessem. Para obter tal resultado existem ao menos duas vias a serem percorridas: a primeira é evidentemente a ameaça (o “porrete”), a segunda é notoriamente baseada naquela promessa que se oferece, por exemplo, ao burro (que nunca alcança a cenoura presa em uma vara em sua frente). Mas existe uma terceira via, a que permite minimizar ao máximo o uso do “porrete” e da “cenoura”, ou seja, é a habilidade de atrair e levar à conciliação. O soft power nasce, portanto, do fascínio pela cultura, pela política e pelos ideais de determinado país, ao ponto de seu poder se sobressair quando as suas políticas atuais são vistas como legítimas aos olhos dos outros. O sucesso de tal estratégia depende muito da reputação que um Estado possui dentro da comunidade internacional e do fluxo de comunicação com os demais autores do sistema. Para iniciar, é necessário partir de três temas que refutam a natureza do poder, do modo que ele é tradicionalmente conhecido e exercitado: 1) O primeiro divide-se em dois, Poderio militar e econômico. Não são mais os únicos elementos suficientes para determinar quem vence e quem perde no tabuleiro internacional; 2) o segundo é o incessante fluxo redistributivo dos recursos do poderio que resulta da globalização e não permite a ninguém o acúmulo suficiente de poder para ser considerado hegemônico; 3) o conceito weberiano do poder, baseado da organização burocratizada, impõe custos sempre maiores às instituições que o detêm; por outro lado, cresce a capacidade dos autores não estatais, mas da sociedade civil em influenciar os negócios de modo significativo, sem recorrer a investimentos infames. Partir desta deflexão teórica ajuda a levar a uma prática. Ir ao encalço do interesse nacional através de uma política exterior conveniente jamais foi uma coisa simples; em um mundo multipolarizado as coisas são ainda mais difíceis.  A democratização do acesso à informação online reuniu indivíduos comuns e comunidades imunes à propaganda e sujeitos ativos daquela que alguns definiam como Public Diplomacy. A informação tende a ser cada vez mais difundida; e sua estrutura, mais descentralizada. Por isso, o modelo de comunicação deve evoluir para um modelo que utilize redes de comunicação em condições de envolver atores civis na construção da mensagem política. O resultado é que governos e instituições diplomáticas são obrigados a se abrir ao mundo na tentativa de influenciá-lo através da sua ação direta, ou por meio de famosos troll armies, “exércitos desestabilizadores”, em tradução livre. Estas tendências reescrevem as regras da política internacional e já redesenham os mapas em que os atores de hoje navegam, perseguindo os próprios objetivos de política externa, pois ainda existem grandes oportunidades a todos os Estados. O seu sucesso, porém, depende cada vez mais de sua capacidade de atrair, persuadir e mobilizar os outros. Mas, como? A resposta é alcançar os próprios recursos intangíveis para gerar soft power. O que com frequência complica é o dever de indicar quais são exatamente as alavancas do soft power, para, em seguida, obter eficácia. O cientista Portland identifica-o como: Governo, Cultura, Empresa, Educação, Engajamento, Digital. Por meio desses indicadores é possível determinar uma classificação clara, mas que nos reserva algumas surpresas. O escritor e jornalista venezuelano Moisés Naím diz: “Um mundo no qual os protagonistas dispõem de poder suficiente para bloquear as iniciativas de todos os outros, mas que nenhum tem o poder de impor a própria linha de ação é um mundo no qual as decisões não acontecem”. Isto é o que mais recentemente estamos testemunhando. A incapacidade objetiva de escolher o melhor entre “porrete” e “cenoura” determinou o rápido avançar e difundir-se de uma versão contemporânea do conflito hobbesiano do homo homini lupus (“o homem é o lobo do homem”, expressão latina popularizada por Thomas Hobbes, filósofo inglês do século 17). O atual caos no Oriente Médio e a paralisação diplomática que o caracteriza, são, entre outros, um exemplo brilhante.