Parece uma bobagem, uma loucura, mas não é. Obviamente, se as pessoas querem que em suas vidas aconteça algo de bom; que as conversas trocadas não sejam só um exercício verbal, um flatus vocis (locução latina que significa “emissão de voz”), isto é um discurso sem consistência e, portanto, sem consequências. “Que seja a Disney-Pixar a nos chamar atenção sobre a utilidade da melancolia, misturando de forma lúdica nossas principais emoções, deixando, porém, a Alegria e a Melancolia duelarem até o final. É surpreendente!” – comentou uma amiga. Eh! Surpresa ainda maior… a Melancolia fechando a história. Sim, é ela que nos torna sábios, humanos. “É no fogo que se testa o ouro”. Estou falando da animação Divertida Mente, lançada em 2015 no Brasil. Ambientado no cérebro de uma menina de onze anos, é uma obra genial e corajosa. É preciso, de fato, ser gênio para transformar as emoções humanas em personagens de uma história. E, mais ainda, é preciso ter coragem para reivindicar, entre estas emoções, o espaço que pertence à Melancolia, retratada como uma menina com óculos, desleixada e de cor azul: a cor do espírito. Ao longo do filme, a Melancolia é acompanhada pela alegria com um embaraço, algo que impede o livre desenvolvimento do otimismo e da felicidade. Mas no final a sua importância será reconhecida. Infelizmente, não é assim que acontece na vida real, onde a Melancolia está sendo continuamente expulsa de qualquer discurso. Tratada como um sinal de fragilidade, como algo que sabota o bem-estar. O esforço cotidiano dos pais consiste no afastar do filho o fantasma da Melancolia, como se ela fosse quase uma condenação à morte e não uma ajuda para viver melhor. Mais ou menos, todos nós temos medo dela, começando pelos pregoeiros da política que nos querem penetrados por um entusiasmo superficial. Além disso, a Melancolia não consome, nutre-se de abstinências e de silêncios, é antieconômica e daninha. Foi preciso que uma animação nos lembrasse que um ser humano, incapaz de acolher a Melancolia, é um robô. E não somente porque a alegria sozinha perde o significado, como a luz sem a escuridão, mas porque somente a Melancolia sabe abrir “fissuras” que nos permitem olhar em nós mesmos de uma maneira diferente, tornando-nos conscientes e, por conseguinte, humanos.