E a sua raiz

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raizNão é fácil dizer quais são os conteúdos da moral, como respeitar os argumentos dos outros sem abrir mão dos próprios; se é uma criação da cultura; se tem um “enraizamento” na natureza do humano ou, então, se expressa uma necessidade de “sobrevivência da espécie”. É bem difícil dizer, mas é indispensável continuar se perguntando.

Hoje, parece que na moral não há fundamentação, sendo que o “bem” se transformou em bem-estar. De fato, a modalidade de sobrevivência do ser humano contemporâneo deixa espaço só a preferências, julgamentos, decisões, opções e prazeres rigorosamente individuais. O fechamento na subjetividade perfeita e o esforço paralelo de absoluta objetividade – ambas focadas no indivíduo – transformam o ser humano ocidental em uma célula autossatisfatória. Estamos vivendo na sociedade do autoerotismo, em uma histérica sede de amor que inicia e termina no “eu”, no vazio das relações, na ignorância da verdade pessoal. Para sair desta “encrenca”, que se tornou uma das causas de muitos transtornos psicopatológicos, é necessário recuperar a verdade do ser humano, mais precisamente da sua existência.

O filósofo e cientista francês Blaise Pascal escreveu que “o homem não passa de um caniço, o mais fraco da natureza, mas é um caniço pensante. Não é preciso que o universo inteiro se arme para esmagá-lo: um vapor ou uma gota d’água basta para matá-lo. Mas, mesmo que o universo o esmagasse, o homem seria ainda mais nobre de quem o mata, porque sabe que morre e a vantagem que o universo tem sobre ele; o universo desconhece tudo isso. Toda a nossa dignidade consiste, pois, no pensamento. Daí que é preciso nos elevarmos, e não do espaço e da duração, que não podemos preencher. Trabalhemos, pois, para bem pensar; eis o princípio da moral”.

Pascal evidencia muito bem que a dignidade humana não consiste nem no “espaço” nem na “duração”, isto é, não consiste na sobrevivência, mas sim no exercício do pensamento. Um pensamento, percebe-se nas entrelinhas, é muito mais do que um simples raciocinar, é um estar ativamente presente frente a si mesmo, aos outros e ao mundo.

Não é isso que desejamos de um amigo? Que não resolva os nossos problemas, e nem mesmo que nos dê sempre razão, mas que nos ajude a entender o que é verdadeiramente importante?

Escutar, estar presente é, portanto, o princípio da moral, sendo a condição básica de qualquer escolha que esteja à altura do ser humano. É assim que cada um transforma qualquer relacionamento em uma promessa de vida, se bem que experimente os seus limites, que consistem na impossibilidade de garantir-se a si mesmo; e a sua grandeza, que consiste na consciência de si, estando consciente dos próprios limites.